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A mensagem do Papa Francisco aos jovens

Terça-feira, 02.08.16

 

A mensagem mais importante do Papa Francico aos jovens foi, a meu ver, a de não se deixarem influenciar, manipular, dominar pelos adultos que escolheram o poder e a ganância. Que a sua lógica do ódio, da violência, da apropriação e da destruição não predomine sobre a convivência pacífica e a colaboração entre as pessoas, as comunidades, os países.

Para que um jovem aprenda a observar o mundo de forma real e não distorcida, ou mesmo delirante, e adquira a empatia com o outro, precisa de se libertar da dependência dos videojogos e do isolamento do mundo real, precisa de se embrenhar no mundo, conviver, colaborar em grupos e na comunidade.

 

É reconfortante ver como tantos jovens respondem de forma carinhosa e entusiástica ao Papa Francisco, como a sua presença os ilumina e desafia, como as suas palavras ressoam nas suas consciências.

Os jovens enfrentam hoje desafios enormes. Cabe-lhes escolher entre a insanidade financeira e política actual e um outro caminho saudável e fraterno, entre a apropriação dos recursos naturais e uma gestão sustentável e de responsabilidade partilhada, entre a nova escravatura e a qualidade de vida universal.

O Papa Francisco anima-os, desafia-os, inspira-os. Diz-lhes o essencial, vai directo ao assunto, não enrola, não mistifica. Os jovens percebem claramente o mundo que está a ser desenhado pelos adultos que detêm o poder. E é aí que são alertados para detectar os sinais da destruição e a escolher a vida.

 

O Papa Francisco não tem ilusões nem as alimenta. A realidade é por vezes cruel, de uma crueldade que não tem nome sequer, a lógica da morte e da destruição, um quarto fechado e escuro onde se tortura, um duche onde se gaseia, e isto continua a repetir-se na história humana, o mal em si mesmo, no genocídio ou no assassinato de pessoas ao acaso.

 

 

Detectar, sinalizar e isolar o apelo ao ódio e à violência é fundamental. No entanto, já repararam que só são identificadas e sinalizadas vozes de jovens alienados e religiosos delirantes? Então e as vozes de alguns políticos, altos reponsáveis, de quem pode iniciar um conflito bélico? Encontramos o apelo ao ódio e à violência em pessoas respeitáveis e a todos os níveis do poder político e financeiro.

É essa capacidade de ver a realidade sem ilusões que os jovens são desafiados a adquirir. 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:41

O Papa Francisco e a visão da realidade

Quinta-feira, 28.07.16

 

 

A caminho da Polónia o Papa Francisco fala aos jornalistas sobre a verdadeira guerra no mundo: a dos interesses financeiros, a das gritantes desigualdades sociais, a da voracidade na apropriação dos recursos naturais.

O Papa esclarece que a guerra não é entre religiões, esta afirmação é central para podermos compreender o que se passa actualmente no mundo, esta violência sem sentido contra pessoas comuns, este fascínio doente pela morte.


A insanidade que vemos acontecer em ataques isolados é da mesma raiz do mal presente na lógica financeira que espalha pobreza e fome.

É esta visão da realidade que o Papa nos traz uma vez mais. Um convite a observarmos atentamente o que se passa, um desafio a não nos deixarmos alienar pela informação propagada pelos media.


Que neste Jubileu da Misericórdia as pessoas comuns abram a sua consciência à visão da realidade e abracem a sua condição de cidadãos do mundo, de uma mesma humanidade.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:00

O perfil de secretário-geral da ONU

Quinta-feira, 21.04.16

 

 

Pela primeira vez na ONU, que faz 70 anos, a escolha do secretário-geral faz-se através de uma selecção apertada, com audiências, debates, entrevistas.

As primeiras ocorreram este mês e as próximas serão em Maio.


Aqui já me referi à candidatura de António Guterres por ser português.

Entretanto já fui pesquisar a lista de candidatos/as.



Qual o perfil ideal de um secretário-geral da ONU?


Qual a cultura que se pretende implementar na ONU? Que tipo de reformas? Que desafios enfrenta?

O vídeo acima fala-nos de transparência, abertura às mulheres, apresentar resultados. Os grandes desafios: mobilizar para a paz, os direitos humanos, as alterações climáticas. 

Que perfil corresponde a esta cultura e a estes desafios?

Liderança, capacidade para tomar decisões difíceis e de mobilizar países e recursos. 


O percurso de cada um/uma demonstra provas dadas: como lidou com situações de emergência? Como conseguiu mobilizar países e recursos? Como foi ouvida e respeitada a sua autoridade? 

Será escolhido/a essencialmente por apresentar resultados.

 

Qualidades que facilitam a interacção, liderança, respeito: como aborda as questões essenciais? Como define prioridades? Consegue passar a sua mensagem? Promove a cultura do séc. XXI, virada para o futuro, porque os desafios são mesmo esses: que futuro?, se o dos conflitos e das catástrofes naturais, ou o da paz possível e da qualidade de vida para as novas gerações.


E há a questão política que também vai pesar. Candidatos/as que são considerados com reservas pelo bloco ocidental e outros/as pelo bloco oriental. Não sei se também haverá um bloco norte e um bloco sul, mas tudo isto entrará na decisão final. 


Em todos os processos de selecção de candidatos que elaborei, penso ter conseguido a objectividade necessária. Por vezes tive candidatos posicionados em ex aequo e nessa circunstância é a empresa que tem a decisão final.

Neste caso da escolha do próximo secretário-geral da ONU, dei comigo a pesar na balança estas condições: "português" e "mulher", porque sou portuguesa e mulher. Como se estas duas características, por si só, tivessem qualquer peso.

A abertura a candidaturas de mulheres na cultura da mudança que se quer implementar na ONU é muito importante, até porque somos 51% da população mundial. 

No entanto, o "factor mulher" só deve ser ponderado em segundo lugar. As capacidades e qualidades únicas de cada candidato/a é que terão de prevalecer. O seu percurso. As provas dadas. A obtenção de resultados.


Até ver, a minha pesquisa sobre os/as candidatos/as tem-me levado a algumas surpresas agradáveis.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:05

A verdadeira ironia

Quarta-feira, 14.01.15

 

Do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, António Morais Silva, Editorial Confluência, 6ª edição: Ironia = Forma de interrogação outrora empregada por Sócrates em relação aos sofistas e que consistia em levá-los a contradições sucessivas para os convencer dos seus erros. // Sarcasmo em que se diz o contrário do que se que dizer e em que só pelo tom se reconhece a insinceridade das palavras. // Aquilo que apresenta contraste frisante com o que logicamente devia ser.


A verdadeira ironia desta tragédia recente em França é que os auto-intitulados "libertários", isto é, os que defendem a "liberdade acima de tudo", estão a contribuir activamente, e sem disso terem sequer consciência, para a limitação da liberdade na Europa.

E comparar a sátira agressiva (já vou explicar porque a considero assim) com o jornalismo de investigação ou com a reportagem de guerra que tornam visíveis as mortes anónimas diárias, não é compreensível.


Causar a morte de outro é o mesmo crime, não é isso que está aqui em causa.

O que está aqui em causa é a violência, a sua necessidade, a construção social de "inimigos", a alucinação de "inimigos", seja em nome da laicidade "libertária", seja em nome do fundamentalismo religioso, seja em nome do pragmatismo financeiro.


A violência e o ódio ateiam-se de várias formas, com palavras, com imagens, com armas.

Reparem que não encontramos a palavra "inimigo" apenas nos discursos inflamados dos fundamentalistas. A palavra "inimigo" surge com preocupante frequência nos discursos de políticos ocidentais, da esquerda à direita.


Tudo o que dizemos ou calamos, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, tem consequências. Primeiro estamos sensíveis à nossa própria experiência, seja agradável ou desagradável. A pouco e pouco aprendemos a ver e a sentir as experiências dos outros e a sentir o que os outros estão a sentir porque já o sentimos. É  a partir desta experiência que surge a consciência. E é a partir desta experiência que surge a responsabilidade.


A verdadeira ironia, a meu ver, é esta contradição humana: em nome do que se acredita (ou se diz acreditar) provocar exactamente o contrário.

Os defensores da "liberdade acima de tudo" estão a contribuir para um caminho securitário e limitador da liberdade (veja-se o que aconteceu depois do 11 de Setembro).

E os defensores da "vida", da "segurança", da "tranquilidade", da "tolerância", estão a contribuir para o aumento das divisões, fracturas e violência.

Como? Deixando-se embalar por palavras, imagens e ideologias que trazem em si mesmas a violência, a fractura, o ódio, a humilhação de outros.

Defender a vida e a liberdade é ter consciência das consequências das nossas palavras, atitudes, comportamento. Defender a vida e a liberdade é defender a paz e rejeitar todo o tipo de violência


A verdadeira ironia está de olhos abertos a olhar para dentro de nós e para o mundo. Pode ser directa e cruel, mas nunca apela à violência, nunca humilha. Pelo contrário, confere-nos o poder de nos sentirmos vivos, conscientes e unidos.

A verdadeira ironia traz em si mesma a capacidade de aceitarmos a nossa fragilidade e as nossas contradições. A verdadeira ironia une-nos a todos na nossa humanidade.

 

 

Também senti a crueldade da ironia neste início de ano: afinal comecei a falar da possibilidade da Europa se abrir e conseguir receber refugiados e emigrantes, e dias depois o futuro da Europa vai pender para o caminho inverso.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:23

Previsões para 2015 e anos seguintes

Sexta-feira, 02.01.15

 

Uma das capacidades humanas é a antecipação de acontecimentos e tendências do futuro próximo. Sem esta capacidade não nos conseguiríamos adaptar às mudanças inevitáveis.


Escolhi propositadamente a palavra "previsões" e não "antecipação" para provocar os Viajantes que por aqui passam.


Aqui vão, pois, da minha inteira responsabilidade, as previsões para 2015 e anos seguintes:


- na política nacional, as eleições legislativas: veremos ganhar expressão os movimentos cívicos. É inevitável uma maior exigência relativamente à competência e eficácia dos gestores dos recursos públicos. Uma das minhas maiores perplexidades é verificar a exigência dos políticos com profissionais como os professores, por exemplo, e não se submeterem aos mesmos critérios de avaliação. Ora, finalmente os cidadãos começam a avaliar o seu desempenho e a exigir que consigam atingir os objectivos a que se propõem.

É assim que o maior receio dos políticos actuais se irá verificar: a expressão eleitoral significativa de movimentos cívicos e de lideranças fora dos partidos tradicionais.

2015 - 2018 serão anos de transição, portanto, de mudança, de conflitos institucionais, de turbulência. É que ninguém gosta de perder influência e poder. Não será, pois, de forma natural e pacífica que as mudanças culturais e comportamentais se irão processar a nível da gestão política.

A partir desta fase de transição, veremos emergir um novo perfil de gestor político (esta é a minha esperança, pelo menos): competência a nível das relações internacionais, da história política, das diversas culturas; aptidões sociais, capacidade de negociação e de compromisso; empatia, tomada de decisões respeitando as prioridades e os valores essenciais. A seguir a esta base comum, a competência na sua área específica: economia, finanças, justiça, educação, saúde, cultura, etc.


na política internacional, os grandes desafios: a paz é o maior desafio. Também a fome, a pobreza, as desigualdades regionais e sociais. A seguir, a gestão dos recursos naturais, o respeito pelo planeta e o seu equilíbrio já tão fragilizado, a eficiência energética.

Estes grandes desafios estão todos interligados. Tal como a nível nacional, também a nível internacional veremos as lideranças questionadas por movimentos cívicos.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:56

Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

Do Tempo das Descobertas: A Última Viagem

Sábado, 05.12.09

  

De novo Avelino Abilheira, a sua voz poética,  n' A Última Viagem, um conto que lembra um filme, que é, de certo modo, um filme, quase documentário: 

 

 

" A Última Viagem

  

Levava muito tempo a fugir, pelos arrabaldes da cidade, entre os cascalhos das casas derrocadas, alimentado às vezes nas provisórias cozinhas de outros humildes resistentes onde havia sempre uma fotografia amarela dum ausente. Levava muito tempo sem ver rostos amigos, sem reunir-me em abraços de palavras para imaginarmos um novo mundo que nunca chegaria, levava tempo assediado por fuzis como uma presa de caça, a dormir num rés-do-chão abandonado ou num desvão sem vidros, de olhada sempre alerte, portando apenas o meu saco cruzado em bandoleira com umas poucas coisas.

Semanas atrás salvara-me no último instante ao saltar pela janela posterior que dava para um pátio em ruínas justo quando soldados com emblemas de terror golpeavam na porta. Só tivera tempo de apanhar o dinheiro restante e umas pertenças na minha bolsa. Levava muito tempo num mundo impalpável entre a vida e a morte, ideando como sobreviver sem comprometer ninguém. Eu sabia que se me apanhavam me matariam, e não era consolo pensar que não era o único. Matar-me-iam por pensar, não por ter matado jamais. Eu não levava armas, apenas a consciência. Não levava ódio, apenas a tristeza. Eu sabia que não era um mártir: Naquela guerra e naquela horrível pós-guerra que duraria sempre não éramos heróis nem covardes, apenas resistentes. Nenhum dia deixei de conceber a utopia, a igualdade de todas as mentes, a beleza de todos os corpos. Sim, poderia ter matado se fosse inevitável. Mas, sobretudo, poderia ter amado muito mais se os tiranos dum país desfeito não perseguissem sempre as pessoas que pensam diferente, que amam diferente, que falam diferente, que escrevem diferente. Eu não queria morrer, mas tampouco viver dessa maneira.

À noite anterior por fim me decidira. Ocultara-me para descansar escassamente nas latrinas duma escola fechada que conhecia bem na parte alta da cidade. Dormira no lixo aonde os inimigos eternos querem enviar todas as letras: pelos corredores ainda havia restos de volumes queimados. Na manhãzinha saíra do esconderijo com prudência, decidido a abandonar a cidade para sempre. Poderia morrer a procurá-lo. Poderiam detectar-me à luz do outono. Mas era dia de maior movimento de gentes nos portos, nos mercados, na estação, e talvez houvesse fortuna.

Durante horas desci num dilatado zigue-zague entre ruelas populares, sem olhar para o chão como suspeito nem fitar no rosto dos vigias, dos constantes confidentes que recebem em troca da denúncia um pedaço de pão e umas moedas. Não devia pisar os mesmos lugares duas vezes para não ser reconhecido. Não devia caminhar por ruas vazias nem afastar-me das zonas populosas. Não devia falar com ninguém. Assim pude aproximar-me pouco a pouco do destino: a estação do caminho-de-ferro.

Sabia que pouco depois do sol-pôr um longo trem partia para longe, para cruzar toda a noite o meu país e outros países ocupados. Era a minha última esperança. Seria a minha última olhada à cidade que me acolhera, a que continha tantos cadáveres amigos, onde deixara o meu quarto diminuto, livros e símbolos ocultos debaixo das tábuas, um ferrugento leito de amor à luz da tarde enquanto dois corpos despidos imaginavam o infinito, onde deixara uns pobres alimentos, a companhia dum gato ocasional que visitava, uma lâmpada de óleo, uns retratos da infância familiar, algumas prendas com antigo recendo a salitre, a tinta, a lareira.

Consegui entrar na estação na hora mais ocupada da tarde em que regressa e chega muita gente. A zona estava contagiada de uniformes homicidas que procuravam presas em babujante matilha, intimidando e detendo gente para saciarem os trasbordantes matadouros. Dissimulei-me e pude obter uma passagem para o ponto mais distante do trajeto. Depois, durante horas, pervaguei ainda pelas ruas para voltar à estação pouco antes da partida. Levava todo o dia sedento, esfomeado, mas era jovem, forte, e animava o meu corpo um perseverante latejo quase doloroso, uma esfera de sangue inapelável porque continha uma herança de séculos humanos de utopia.

Chegou o entardecer. A poucos minutos da partida, num momento de menor perigo, pude deslizar-me e entrar no trem com figurada calma. Percorri pelo corredor algumas carruagens e escolhi um compartimento quase vazio perto da cabeça. Uma camponesa de longa saia cor de terra, socos, pano negro e um cesto de alimentos ocupava o assento da janela que olhava para a entrada da estação. Saudámo-nos. Compreendi que há gente que viaja de costas ao futuro, olhando com saudades como o passado se esvaece. Outra viaja defrontando o porvir, de costas ao vivido. Eu sentei-me em frente da mulher, a olhar para o infinito por achar, sem dar o rosto ao cais.

O angusto compartimento foi enchendo-se plenamente: uma moça delgada, um jovem macilento, uma parelha anciã com sotaque estrangeiro, duas mulheres semelhantes de cabelos recolhidos... Pelo corredor continuavam a transcorrer figuras que buscavam lugar dentro, prosseguiam, ficavam de pé junto às janelinhas do outro lado: um casal com três crianças, uma adolescente, um marinheiro eivado com muletas... Acumulavam-se as bolsas nas estantes superiores do nosso reduzido espaço, tocavam-se os limites dos corpos que se iam acomodando. Cheirava a madeira idosa, a carvão, a vapor, a terra, a pó, a maçã, a calor, a pele triste. Comprimiam-se os perfis, estendiam-se as sombras, esvaiam-se as formas como se fôssemos um único animal antigo. Oito corações vibravam contra o ritmo da máquina de ferro que aquecia com urgência.

 

De súbito intui virar a cabeça para espreitar os movimentos dos carrascos na gare. Vi mover-se rapidamente um oficial que guiava quatro soldados rumo ao comboio. Buscavam faces nas carruagens finais, com bruscos acenos quebrados, como autómatos. Em ocasiões paravam, elevavam as cabeças, continuavam. Já estavam perto da nossa carruagem.

Soou um zunido de vapor. Eu olhei para longe, para o porvir que estava decidido a alcançar, oferecendo apenas um tranquilo perfil aos militares. O trem inteiro rangeu, senti o golpe da primeira pernada, o mundo moveu-se para atrás, iniciou-se a familiar língua metálica das viagens, o trem trespassou a estação, abriu-se a última luz obscura do dia sobre casas de arrabalde e hortas intestinas, e por fim surgiu o monte, o ar, o campo aberto da fugida.

No compartimento olhámo-nos um a um, sem falarmos. O nosso corpo múltiplo amoleceu e respirou. Compreendi que, duma maneira ou outra, todos fugíamos de algo rumo a algum território de sossego. Levantei-me e baixei parcialmente a janela para deixar entrar o ar húmido da terra própria. Inauguraram-se então breves diálogos cruzados, sem alvo, para mostrarmos que estávamos aí, reunidos no imediato e no possível.

Já era noite e decorriam campos e florestas. O comboio detinha-se brevemente nos apeadeiros de pequenos lugares como células centrais dum enorme ser que a história foi matando. Entrava e saía alguma gente, e a viagem continuava. A mulher campesina subiu a cesta dos seus pés, abriu-a e ofereceu a partilha de alimentos. Outras pessoas pegaram em bolsas e sacos e houve uma balbúrdia de oferendas e agradecimentos. Eu não tinha nada que doar, apenas tabaco, e recebi de todos. E compreendi mais uma vez essa singela lógica da igualdade contra a qual os genocidas lançaram tantas guerras: Se tens, dá; se não tens, recebe. Guardei na bolsa um pequeno pedaço de pão de boroa para o caminho.

Concluiu o escasso jantar e voltaram as cortadas conversas, os cigarros, o descanso provisório nesse berço de ferro compassado que nos levava longe. Entrava para nós ar puro vegetal. Acompanhava-nos uma perfeita lua cheia, a mesma lua vedranha das marés, dos desvãos de amor, dos estanques. Íamos para um sol nascente, o mesmo sol do verão central nos campos, dos desvãos de amor, dos entardeceres sobre um rio. E chegaríamos.

Inesperadamente, numa curva cauta entre montes, o trem começou a diminuir com um forçado rangido. Fomos projetados uns contra outros. Olhámo-nos em surpresa. A jovem e eu impelimo-nos à janela para saber o que acontecia. Na cabeça do comboio viam-se sombras pretas de homens a aproximar-se e carros militares a bloquearem a via. "Soldados!", escutou-se com temor desde uma carruagem vizinha. Pela cauda do trem chegavam mais homens com armas: estávamos comprimidos na trapaça dum controle no meio do nada.

Então todos os passageiros, desde todas as carruagens, como uma população de cidade nómada, começaram a recolher com vigor as suas coisas e a fugir pelas abas monte acima, a disseminar-se pelo lado contrário monte abaixo, rumo a amplos vales nutridos por rios que acabam num mar que não acaba. Entre as árvores adivinhavam-se pontos de luz de fachos, moradas provisórias, como reclamos a proscritos. O trem foi-se esvaziando de almas enquanto os soldados corriam atirando sem fortuna contra as trevas.

A jovem delgada do compartimento era a última a sair. Desde a porta, olhando nervosa para os lados, estendeu-me uma mão e convidou-me:

—Vem! Vamos! Não há tempo!

—Não, amiga...— disse, sereno. —Ainda não cheguei ao meu destino.

—Mas vão-te matar!

—Não— expliquei. —Direi que não pertenço ao seu horror.

—Podemos começar de novo!— insistiu. —Somos poucos, e não será o mesmo. E levará anos, sim. Mas morrer não vale a pena!

Não respondi. Despedi-me dela com um sorriso e esse lento fechamento dos olhos e compasso da cabeça com que se despedem velhas amizades, e vi como ela partia, escutei como saltava da carruagem para os vales. Eu fiquei absolutamente só nessa cidade fugidia abandonada.

Voltei a sentar-me no meu lugar, de face ao porvir, com a bolsa ao meu lado. Apoiei a cabeça na janela, em calma, e fechei os olhos.

Sobressaltou-me um repetido golpe seco no vidro. Distingui numa paisagem imóvel um oficial e quatro soldados que olhavam para o interior. Virei-me para dar as costas ao exterior e aguardar a entrada deles fitando-os na cara. "Não me levarão", pensei. "Se me vêem, não serei eu quem seja visto. Se me falam, direi que não os compreendo, pois eu não vivo no seu mundo de terror". Eu não tinha armas, apenas a força da razão. Eu não carregava ódio, apenas a tristeza. Não éramos mártires. Não éramos heróis, não éramos covardes: apenas resistentes.

Nuns instantes apareceu na porta do compartimento um homem de uniforme:

—Senhor, que faz aqui?

Olhei para ele em hierático silêncio, como se pertencesse a um plano errado da verdade.

—Tem que baixar, senhor. O trem não sai.

—Não sei o que me diz— mantive a firmeza.

—Este trem dorme aqui. Leva horas parado. Temos que limpá-lo.

Fez-se uma luz brilhantíssima, metálica, pungente. Por detrás do revisor observavam-me com preocupação três mulheres e um jovem de roupas azuis, com panos amarelos e frascos de líquidos na mão. Eu sentia dores no ombro e uma enorme fraqueza nas pernas.

Tentei incorporar-me. O revisor ajudou-me do braço:

—Está mal? Chamamos um médico?

—Não...—. Apanhei a pesada bolsa. O homem ajudou-me a colocá-la no ombro e guiou-me até às escadas enquanto me observavam.

—Com cuidado...

Pisei o cais, titubeando. Um casal com muitas alfaias olhou-me com receio. Um grande relógio alto marcava as 10:35. Ecoavam na gare vozes de alto-falantes em duas línguas alternas. Jovens de prendas longas corriam para as vias com malas pequenas sobre rodas. Longos sinais luminosos anunciavam com confusas letras móveis horas e nomes de cidades.

Tirei da bolsa o meu sossegante maço de tabaco e dispus-me a prender um cigarro. Aproximou-se um guarda com um brilhante colete amarelo:

—Não se pode fumar, não vê?— apontou para um cartaz.

Quando guardava o tabaco, entrevi dentro da bolsa uma luzinha azul que piscava com raras vibrações. Apanhei o aparelho, premi sem reparar nalgum lugar e levei-o ao ouvido:

—Onde andas, homem?— era uma carinhosa voz de mulher. —Estive chamando toda a tarde.

—Não sei...

—Onde estás? Ainda no trabalho?

Olhei em redor.

—Na estação... Num trem...

—Ai, parvinho!— reconheceu ela. —Outra vez? Anda, vem para casa.

—...

—Ainda há sopa rica da tua.

Comecei a regressar, a reviver o conforto da tibieza quotidiana, a côncava nação do amor habitual.

—Já vou...

—Vou-te buscar, meu rei?

—Não, já vou...

Levava anos a fugir, em solitário, pelos arrabaldes da amizade, nas ruínas de mim próprio, sem achar rostos nem palavras. Levava anos habitando em mim mesmo, como um território autocontido, na falsa pátria íntima onde ninguém te acossa, nem te arresta, nem te increpa, nem te exige, nem te fala...

Dirigi-me à saída. Por detrás do vidro da cafetaria um homem sem barbear introduzia moedas sem descanso e premia botões numa sonora máquina de luzes. Um moço de café levava bandejas de bebidas obscuras e pratos de azeitonas a três adolescentes que riam. No alto da parede, um ecrã alongado com insistentes linhas de palavras mostrava saturadas faces planas a gritarem. No exterior recortava-se uma cobra de táxis brancos contra o perfil apagado da cidade. Caía uma poalha de água mansa.

Cheguei à cabeça da fileira de automóveis. Dois condutores de pé falavam interrompendo-se sobre números e façanhas dalgum grupo desportivo. Abri a porta posterior. Doíam-me intensamente as pernas e o ombro pela bolsa.

—Metemos isto detrás?— perguntou o taxista para ajudar-me.

—Não!— exclamei, agarrando a bolsa contra o corpo. Fechou-me a porta, sério. Olhei para a estação, despedindo-me. Começou a chover. Fazia muito frio.

Dei um endereço, e pouco a pouco moveu-se a matéria da cidade: os peões urgentes, os carros como cansos mamíferos molhados, a linguagem intermitente das luzes, essa múltipla solidão que habita nos prédios altos, os negros afluentes do asfalto, a ordem dos jardins inativos, os traços da chuva nas janelas, o bater clínico do limpa-pára-brisas, a ausência mútua de dois seres anónimos no interior duma demorada borbulha de metal que se dirige a um último destino.

A bolsa pesava-me imensamente sobre as pernas. Coloquei-a com cuidado no assento, com a mão pousada nela como num amado animal doméstico. Eu levava comigo um pedaço de pão, tabaco, vários livros de trabalho, um caderno de notas, dois livrinhos gémeos de poesia, uns postais velhos, algumas fotografias, uma cruz de Santiago, uma caixa vazia, um frasquinho cor âmbar, um anel de prata, uma doa laranja, uma pedrinha azul, três flores secas... Fechei os olhos e vi um desvão dourado, um dólmen, uma casa com flores, uma cálida cova, um quarto de madeira sob a lua. Dentro de mim soava uma cantiga numa ermida, o diálogo dos barcos no peirao, a sinfonia dos animais da noite, soava um bando imenso de estorninhos. Respirei, respirei fundamente, e vi cem rostos de amigas e de amigos, e recendeu a mar, a acácia, a ilha virgem, a papaia, a campo aberto, a abraço de amor, a carta antiga... 
"
 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:48

A nossa casa

Quinta-feira, 22.10.09

 

 

A nossa casa é branca

e está colocada no lugar certo

de um lado a montanha

do outro o lago

e no espaço intermédio

árvores e flores

 

Mas o melhor da casa é a luz

a luz da casa

que se inicia de manhá

primeiro oblíqua

depois vertical

 

Há um caminho para a casa

um caminho só

e só sabe percorrê-lo

quem de nós sabe

o riso e os abraços

 

A sala está virada para a entrada

de onde os podemos ver chegar

um a um, vamos recebê-los

deixando as suas vozes misturar-se

com a brisa que ali sempre passa

 

A nossa casa

é a nossa história comum

branca e luminosa

os gestos mais simples

palavras soltas

risos

algumas lágrimas

e o espaço subtil

que tudo ilumina

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:08

Do Tempo das Descobertas: O Estanque

Sexta-feira, 09.10.09

 

E a segunda Descoberta vem da Galiza:

 

 

Avelino Abilheira
" Cara amiga, caro amigo,


Nestes dias inversos em que a palavra "paz" pertence aos donos das
guerras, atrevo-me a incorrer no vosso prezado tempo com este breve
pensamento antigo sobre os alimentos perenes da vida, que são o amor, a luta, a ordem da matéria, a memória. Grande abraço!
 
 
O Estanque

Aconteceu a começos da estação migratória, durante sete noites de irrepetível alinhamento entre Vénus, Terra e Marte, nesses anos de rara esperança para o povo em que até as águas podiam voltar a falar: não existe para a História igual prazer que expulsar o opulento monarca que ocupava a tua casa.

Eu passeava na alta noite na Alameda, lembrando os seus caminhos, quando a superfície totalmente lisa do estanque começou a vibrar levemente desde o centro sob o mesmo princípio sonoro dos tambores e das membranas dos telefones infantis de lata e corda tensa. Sentei-me num banco para escutar melhor uma baixa harmonia de vogais. Apenas distingui algumas sílabas de flores antes de o vento perturbar as águas. A presença dum guarda aproximando-se convidou-me a partir, pois os tempos ainda eram menos livres que o desejo.

Voltei à noite seguinte à mesma hora. Junto da alverca circular, o Comissário instruía com gestos de vigor a um jovem pálido de olhar perdido que reconheci como habitante do outro lado da liberdade, um pobre guarda daquele ano da greve agora destinado a recolher informações, como se o acosso aos humildes doesse menos do que os golpes.

Fingindo indiferença, aproximei-me das águas pelo lado oposto, e o portento das ondas suaves repetiu-se. Mas de novo entrou um ar que rompeu a superfície e enxotou as palavras, porque com dois elementos —água e terra— traçamos os signos os humanos, mas os outros dois foram criados para apagar as escritas.

Só na terceira noite o estanque terso como um espelho para astros e aves difundiu com clareza fragmentos dum diálogo em dois timbres. Falavam papéis miúdos aliados com a substância do pão, porque nascem do mesmo germe vegetal. Então reconheci entre pausas palavras sobre flores e sangue, frases sobre poesia e persistência, sentenças da inconfundível matéria do amor. No seu banco, o pálido polícia escutava também, olhava-me em suspeita, detinha-se, registava coisas minuciosas num caderno.

Por fim, no zénite da quarta noite extremamente calma, pude reviver com prazer meses inteiros de conversas furtivas. Voltei a ver duas figuras a fiarem lentas danças de passos entre as árvores. Com a última frase singularmente clara todo o estanque tremeu como um redondo mamífero que acabasse de acolher no centro uma semente. Quando o diálogo concluiu com um prolongado nome de mulher, no branco silêncio final da sinfonia, retirei-me a descansar, tranquilo, pleno.

Nas noites seguintes a intensidade das vozes foi esmorecendo enquanto os três pontos planetários se afastavam da linha guia marcada no seu céu. Foi só no último dia do prodígio, quando quase nada se escutava, que observei como o jovem polícia já não escrevia. Se soava a voz da mulher, ele erguia a cabeça e olhava para o fundo dos salgueiros, como lembrando um abraço não vivido, o admirável rosto dessa voz, a breve visita em missão de trabalho à casa das acácias amarelas. Compadeci que o guarda fosse prisioneiro dum antigo desejo pelo qual nem sequer combatera. Pela minha parte, a ausência fizera-me entender que embora as flores irreparáveis morram, outras podem nascer no seu lugar para escreverem de novo nas janelas.


Pouco tempo depois houve um enorme massacre e uma guerra terrível. Se por desgraçada obediência eu tivesse levantado uma arma, talvez esta não fosse a nossa, mas a arma do terror. E talvez, em paradoxo, me visse obrigado a matar defronte na trincheira um infeliz converso que pálido de amor defendia a morte a liberdade dos povos e das águas para falarem quando se ordenam com justeza no infinito as três cores dos planetas.
"
 
 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:16

Do Baú:

Terça-feira, 07.04.09

 

 

Meu amor   meu amor

Esperei tanto tempo

(ou fugi este tempo todo?)

que venho cansada   tão cansada

 

Diz-me que cheguei finalmente a casa

que fiz as pazes comigo e com a vida 

 

 

 



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:33








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